As minhas raízes que brotam das pedras que me viram crescer
Sábado, 10 de Junho de 2006
Natal em Crise

Este é o meu último livro, editado em Dezembro de 2005.

Aos que

na Noite de Natal

dormem sob as  pontes.

 

               *

 

A meu neto Bernardo,

com uma última vontade:

que me leve pela mão.

Justificação:

 

 

      Com os restos de alma que minha mãe encheu de sensibilidade para o mundo e de fé para o Além, vou escrevendo as minhas contradições: pedir aos outros que façam o que a mim me não apeteceu fazer.

      -  “Bem prega o frei Tomás! ...» - dirá quem me lê e me conhece. Mas, nunca quis nem quero ser mentiroso!

      Prefiro que me levem à conta de pecador por omissão, pedindo apenas que tenham por bem intencionado.

      Reconheço que é perigosa a ousadia de escrever sobre assuntos que não domino com a profundidade exigida ou que abordo com grande dose de subjectividade. Eu pecador me confesso!

 

*

 

      A reler e a reflectir o que versejei sobre NATAL EM CRISE, sinto-me pessimista perante a vida que partilho em sociedade, e isso não é bom. Sentindo-me mal neste mundo, já pensei fugir para melhores paragens, mas ... chego sempre à conclusão de que ... nem no Vaticano!

      Também a mim me parece que o homem era naturalmente bom, mas que a sociedade o corrompeu. Assim ou por outro processo, é efectiva a crise do homem.

      O maior “buraco” de cada crise não é medido pelos milhões que faltam num orçamento em macro; ele está no facto incontornável de que os homens, cada um ao nível da sua responsabilidade, já não são capazes de parar nos deslizes da sua auto-suficiência; já não conseguem arranjar tempo para a actividade do pensamento; já dispensam quaisquer outras leituras e ironizam toda a referência a sentimentos e valores, sem repararem que toda esta actividade psíquica faz a diferença entre  os animais racionais dos outros.

 

*

 

      O importante é ser capaz de comunicar nos dois sentidos, que é como quem diz: de homem para homem, entre ti e o outro, entre mim e ti, entre mim e o outro, entre nós connosco.

      Sinto grande necessidade de comunicar com alguém, e esta foi a forma de dizer, em versos salpicados de um romântico “estilo” que me domina, uma leitura personalizada do realismo humano, individualmente e em sociedade.

 

*

 

      O Natal continua a ser uma referência a valores, um programa de bondade para a paz que se anunciou aos homens de boa vontade.

      Nos meus versos negros, apeteceram-me as lágrimas, mas quis dizer, com eles, que o ideal é possível e pode existir. Coisas de igreja? O pecado social é dos homens, com ou sem religião, com ou sem Natal!

 

 

                                            Filipe Antunes dos Santos

 



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RUBRO DE CEREJA

 

Beija na boca, beija mais e mais

a pobre apaixonada em mulher.

Nua para a entrega diz-se em “ais”

inda aquém do orgasmo - bem-me-quer.

 

Por amor, beija a boca apaixonada,

toda em fogo de homem que desejas,

a raiz do amor é refrescada

com os beijos em rubro de cerejas.

 

Se a paixão cria ondas como o mar,

a nortada faz ondas com espuma;

se, na boca, os beijos vão queimar,

o amor põe na praia a fresca bruma.

 

Maré baixa, não põe no ventre o fogo!

Maré alta, ... se a boca der Amor.

Beijos de ontem? De hoje? Os de um jogo

no ferrão da abelha que ama a flor.

 

Beija a boca por dentro da paixão!

Faz amor, como o tempo e a semente!

Faz o mundo no fogo da explosão

que, na vida, é a vida que se sente!

 

Beija forte, no calor da convicção,

o que amas e crês - a tua vida.

Ser na boca ou na face apetecida, ...

é Natal que te sai do coração!

 

                                     Coimbra, 20/21.11.02

 



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O MENINO INFELIZ

 

Perguntei agora ao sol

que se acende no farol

se inda há água no mar.

Disse: «Sim! Mas, ... atenção!

Se tardar a decisão,

a secura vai matar.»

 

Perguntei agora ao vento

que sacode o pensamento

se no mar havia sal.

Disse: «Sim! Neste momento,

só não tem cento por cento

porque falta Portugal».

 

Perguntei à praia-areia

onde a vaga se recreia

se não guarda na memória

os receios do Restelo.

Disse: «Sim! Mas, ... um tal zelo

foi vencido pela história.»

 

Perguntei agora ao Povo,

entre o velho e o mundo novo,

se, nas naus que fez ao mar,

algum dia faltou braço.

«Não! Na mão sempre houve espaço

pra ser onda a empurrar!»

 

Nesta noite de Natal

sobre a noite - Portugal,

o Jesus sempre nos diz:

Não há paz, falta o amor;

não há pão, a fome é dor, ...

Sou Menino infeliz!



publicado por alecrimdaserra às 01:13
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NATAL A FAZER AMOR

 

Fazer Natal é fazer amor a dois,

Amor em Verbo, mas depois

de conjugado no tempo certo!

 

Alma quente e lareira  em refractário,

é chispa que acende em pederneira,

as estrelas em forma e brilho de pão.

Mas é pobre contraste na razão,

de um falo e de um dedo traçados,

um cheque gordo para pagar

os Natais adiados.

 

Fazer Natal é fazer amor a dois,

Amor em Verbo, mas depois

de se estar no tempo conjugado!

 

Um gueto na fartura das crianças

com fome,

cinco estrelas de céu por cama,

rua estreita acordada e sem sono,

um auto em top e um doente

sem hospital,

a cocaína da morte lenta

na seringa da execução,

a noite nos olhos e o crime

na estrada!

 

Fazer Natal é fazer amor a dois,

amor em Verbo nunca depois!



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SER DO TEMPO

 

Não sei.

Como posso saber?

Cabeçudo não é rã,

homem não é rei,

estrume não é pão, ...

Tudo é a ser

Encarnação.

 

Não sei.

Como poderia saber?

O ontem não é o hoje,

O belo não é a última versão.

Nada é antes de ser

Encarnação.



publicado por alecrimdaserra às 01:12
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EM BOA HORA

 

Embora em boa hora o dia seja

estagiário de tempo num ano agora

quando o Homem acende a aurora

e o tempo velho se fecha na igreja,

desafio a deus por Zeus, por Alá

que me nasça cada tempo num sinal

do coração que seja o do Natal.

 

Embora em boa hora o tempo seja

num estágio dos ismos – dia, hora, ...

apenas o destino de quem comigo chora,

o tempo novo em velho e em igreja

põe-nos fora do jogo em que a mentira

quer nascer cada tempo, ser sinal

sem matriz, sem vislumbres de Natal.

 

Embora, em boa hora, a manhã seja

claridade só no sonho da aurora,

abra-se em prefácio, (noves fora

eu e quem, adiado, não esteja

com as mãos a fazer já o mundo melhor)

o tempo novo. Não se diga que esse sinal

é matriz velha se o coração é o Natal!



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A VERMELHO

 

Venho escrever um poema vermelho

de argila molhada na pena, no dever:

palavra e rosa a dizer sangue dado

por martírio plebeu - o evangelho;

escrita apócrifa no rego do arado,

na semente, na terra, no húmus da lei.

 

Vou chegando para escrever

como a dizer Arzila, Arzila,

o último verso do meu poema.

A tinta é o vermelho de argila

na pena aparada ao jeito do meu ser,

bico molhado no peito do dever.

 

A palavra é a rosa a dizer amor,

o poema é o meu sangue soado,

pouco verso num tema atamancado,

só um sonho com brilho de luar:

um Natal que por força me conduz

ao Menino Jesus da minha cruz.

 

A escrever, vou ficando por aqui,

que secou a argila da montanha

no meu berço em serrano amassado;

Na descrença da vida que vivi,

peço a Deus que aqui faça do Natal

o futuro para além de mim, coitado!



publicado por alecrimdaserra às 01:11
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POR OUTRO CAMINHO

 

Espero que o carvalho seja isso:

a cabra com o corno no toutiço,

o varrasco em repasto de bolota,

os currais com soalho em folha seca

na mudança de mantas e lençóis.

 

Não espero bugalhos em castelo

nem bolota no enchido do chouriço!

Espero, sim, do carvalho em novidade,

uma sombra e o fresco de uma fonte

sem sarugas no uso - propriedade,

sem borbotos na lã que me aquece.

 

Esperar? Todo o tempo, se eu fizer

um presépio sem burro, só reis magos

que de Herodes percebam a intenção

- o malvado com medo do Menino,

e percorram os três outro caminho,

o outro sem traçado de asinino,

que há-de ser para passar a Redenção.

 

A esperança que canto no Casal

com os anjos do mundo acordado,

vai num verso – poema que, afinal,

me sacode, me relança o eu tardado

pra fazer obra-prima com sinal

de outra vida – metáfora de um fado

que, aqui, me anuncie a construir

dando as mãos ao Menino do Natal.



publicado por alecrimdaserra às 01:10
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A VIDA CONTINUA

A vida continua

quando o fim sempre volta a menino.

A morte só tem dia

quando o berço armado não é pra ser.

 

A vida vai sendo

quando a rosa dá cor ao meu destino.

A morte morta só o é

quando a vida se esquece de viver.

 

A vida em vida é sempre mais

quando o homem sabe o que é morrer.

A morte conta sempre menos

quando o homem sente e ama a vida.

 

A vida não acaba

quando o homem sabe o que é sonhar.

A morte nunca vem

quando o homem se fixa no Além.

 

A vida é uma soma

quando o homem se põe nas suas mãos.

A morte é subtracção

quando o homem não conhece os irmãos.

 

A vida é o princípio

quando o homem é ele até ao fim.

A morte nem é fim

quando o homem na vida adormece.

A vida continua no coval

quando o Homem o transborda de certezas.

A morte fede pelas frestas do caixão

quando os vermes devoram os nadas.

 

A via é o poema que se compõe

de alegrias, tristezas, sonhos, ilusões.

A morte morreu quando engoliu

o poema e os compassos da harmonia.

 

A vida é eterna mocidade

quando as mãos fazem hoje a Primavera.

A morte vem noutro tempo

que se conta num relógio de corda partida.

 

A vida é um poema de Natal

quando em cada estrela brilha um sonho.

A morte é o escuro no fundo da cova

se, a esperar, não há ontem nem amanhã.

 



publicado por alecrimdaserra às 01:09
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O NATAL DEPUTADO

 

Do que ouvi e ainda guardo

no sacrário monumenta,

lembro a ironia do anjo mau

a dizer verborreia em calhau,

a pregar o conto do vigário,

a lavar o pecado em água benta.

 

Do que ouvi, tudo cabe no diário

de Repúblico lacrau a morder

o tendão do velho Aquiles - calcanhar

deputado em novo prontuário,

oposto programado em maldizer,

situado a servir a oposição!

 

Do que ouço em tevê fica escrito:

parlamento em versos de vento,

a pobreza da triste figura.

Podem vir, ao mês, ao dia, mais Natais,

que a mudança não mudará os sinais

do que é dito em Parlamento.

 

Parlamentos? A ninguém fica o direito

de trocar eleições - democracia

por moeda em quilate pantomina,

vergonhas, traições ... tudo a eito!

 

A rimar a nudez de um País em fantasia

deputada pela nação - representante,

sé é eleita, nas promessas da mentira,

é desgraça do Povo expectante,

e o Natal para o Povo assim se adia!

 

                                                  Coimbra, 2002


publicado por alecrimdaserra às 01:09
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